sábado, 13 de janeiro de 2018

Existe vida após o Casamento (Partilhando uma experiência pessoal)



Já fazia um tempo que eu estava com vontade de escrever algumas reflexões sobre a delicada questão do fim de um casamento e, nesses dias, encontrei-me com um casal de amigos que estavam expondo, na mesa do almoço, a crise que eles estão passando (e não é a primeira). Então depois da conversa falei pra mim mesmo: vou escrever!

Pretendo fazer reflexões sobre a vida de relação, o que se passa no casamento e o que pode acontecer com as pessoas em casos de divórcio. E pretendo também contar um pouco da minha experiência, porque no fundo no fundo, acredito que a gente estuda, observa, pesquisa as relações, ouve as histórias dos amigos, mas na verdade a gente só pode falar a partir do que viveu. Então tudo o que eu vou falar aqui, reflete meus processos, tem esse filtro: a minha própria experiencia. E que fique claro que se trata da minha leitura do passado a partir do momento atual. Se eu fosse escrever ontem seria outra leitura. Se eu escrever amanhã será outra. Que fique claro, então, que existem infinitos passados, infinitas as possibilidade de dar significado às coisas que acontecem na vida da gente.

A conversa com o casal de amigos foi durante um almoço. Papo vai, papo vem eles começam a falar dos processos deles. De como se relacionar tem suas complexidades no encontro dos padrões de um e de outro. E de como, na junção, acabam acontecendo brigas, perda de desejo, irritação de quem convive cotidianamente um com o outro. Entre eles há diálogo, verdade, carinho e compreensão mútuas (quando a luz está brilhando), todos os requisitos básicos de quem está (como todos nós) aprendendo a se relacionar e investindo na relação como processo de crescimento pessoal. Mas igualmente têm suas sombras e aí as brigas, a irritação, a perda de vontade de estar junto. Surgem dúvidas, projetos pessoais não realizados, o que o outro vai pensar se eu fizer essa viagem sozinho? Coisas assim, muito comuns em muitas relações. Coisas que se passam com todo mundo.

Ambos partilham esse ideal: de que estamos na vida para alcançar um nível de autorrealização e o caminho tem a ver com olhar para si mesmo, e as relações podem ajudar porque, em intimidade, vamos vendo quem somos sem véus. E, claro, nesse meio de jornada vivem essas fases mais ou menos longas de crise. E as pessoas sempre se perguntam nas crises: será que é hora de terminar? Ou essa vontade de me separar tem origem no sentimento de fuga de mim mesmo?

Crises a gente vive nos casamentos e fora deles. É parte do caminho humano.

Mas eu sei que lá pelas tantas, enquanto eu os ouvia, me lembrava da terapia do Victor Frankl, o psicólogo que criou as bases da logoterapia (terapia do sentido de vida) na situação extrema de um campo de concentração. Era comum em seu consultório, quando a pessoa contava para ele suas questões, ele perguntar: "me diga, por que você ainda não se matou?" Sim, uma pergunta extrema e, aparentemente de pouco tato. Na verdade ele queria que a pessoa percebesse o que é que dava sentido para a vida dela. Um filho, a realização de um trabalho, um senso de dever, algo que lhe dava sentido para viver.

Então eu pedi a palavra, falei do Frankl para eles e perguntei: "no caso de vocês, porque vocês não se separaram ainda?"

Qual o sentido de se estar juntos?

Ambos têm feito um trabalho de autoconhecimento e partem do princípio de que se separar não é solução para suas transformações pessoais. Atualmente vai ficando sabido que depois que você se separa, se você não faz as transformações internas, vai encontrar lá na frente uma outra pessoa que vai te colocar diante das mesmas questões. Então separação não é solução. A transformação pessoal é que é o caminho. E as questões da relação são bons motivos pra gente se olhar no espelho e ver o que precisa ser transformado.

A conversa terminou e eu fiquei pensando, pensando...

Às vezes um casal chega a um limite. Já não estão crescendo juntos. Já criaram raízes de sofrimento demais, e mesmo que façam suas autodescobertas, pode ser uma boa oportunidade começar algo do zero. Desde que façam, de fato, essas transformações. Às vezes acontece de um estar num processo de transformação e o outro não. As frequências ficam muito diferentes. A separação pode ser um bom caminho, quando se está sofrendo demais junto. Então é preciso avaliar se não tem um peso da cultura que herdamos que olhava o divórcio com um certo tabu. O casamento que era para ajudar a evoluir, está atrasando o caminho dos dois. Juntos, estão se afundando em processos de mais dor.

Cada caso é um caso.
Perceber que um ciclo se encerrou e se separar é sábio. Mas a durabilidade das relações é que as aprofunda. Permanecer juntos é sábio também.
Cada um vai ter que olhar pra si, em profundidade. Terapias, terapias, terapias.

Vou contar (um pouco) do que eu vivi.

Meu primeiro casamento foi muito bom. Fui muito feliz. Percebo que cresci muito como pessoa. Aprendi o amor, o cuidado com o outro, o respeito e a compreensão, no convívio, com o jeito do outro, as necessidades do outro. Desfrutamos do prazer que é estar junto, a cumplicidade, a parceira, os carinhos, amar e ser amado. Aprendemos a dialogar muito e a resolver nossas crises juntos (não íamos dormir sem resolver nossas questões), fazíamos rituais de diálogo em torno de uma flor para ter as necessárias DRs, discutir a relação. Depois de 12 anos juntos, entramos numa crise que fomos tentando resolver, curar, mas nada resolvia.

É difícil explicar as causas das crises. Mas eu posso falar por mim que havia muita confusão na minha escuta dos meus desejos e anseios. É a confusão eu-outro. Eu não sabia bem diferenciar o que eu queria daquilo que eu só queria porque era o querer do outro. Ou ainda: o que eu supunha ser o querer do outro. Isso é a desgraça de qualquer relação humana. Você não sabe o que quer; de tão desconectado que você está de si mesmo. Isso é comum. E se intensifica nas relações mais íntimas. Então sim, havia coisas a seres escutadas, por exemplo o tal desejo de viajar que eu não realizava "por causa" dela. Boa mentira que eu contava pra mim mesmo. A atração proibida por outras pessoas, que eu não contava pra ela. Nessa confusão de sentimentos eu comecei a ver nela, a causa da minha prisão. E isso provocou um tremendo mal estar. Lembro de um dia ir deitar na cama e sentir ódio. Opa! Isso não está legal, pensei. Hoje eu vejo que pra tudo isso tem cura. Mas na época eu precisava passar por uns processos pra entender tudo isso, para estar à vontade com meus sentimentos, para ser eu mesmo, me conectar comigo. Ou seja, a relação chegou num nível que eu já tinha evoluído muito... mas o tanto que eu ainda precisava aprender... só passando por uma ruptura.

Foi aí que ela, dentro dos processos dela que só ela vai saber contar, pediu pra se separar.

Foi duro. Sempre é. Como disse minha psicanalista na época: "não há separação sem dor, como não há encontro sem ansiedade." Mas sempre tem dois lados. Um misto da dor do abandono, com a sensação de liberdade e o alívio por ter terminado um período que realmente não estava bom.

Fizemos uma separação em paz, amigável. No início a gente saía para tomar um café e ouvir como estava sendo para o outro.  Era um gesto de cuidado com o outro. Isso foi proposto por ela e foi muito bom para mim. Ela estava irredutível a qualquer tentativa de volta, ao mesmo tempo estava de coração aberto para cuidar dos sentimentos da gente. Muito sábia. Depois se tornou psicóloga e tem cuidado dos sentimentos de tanta gente!

Eu fui buscar meu caminho, compreender, ressignificar o que eu estava vivendo e encontrar novos rumos. Juntos frequentávamos o centro espírita. Conheci Kardec através dela e lá fiquei. Foi meu início de caminhada espiritual. Então quando relatei no centro que frequentávamos sobre a nossa separação a reação foi de tristeza. Entendi que lá o pessoal via a nossa separação como uma espécie de derrota. E a proposta tácita do grupo era de que nos reconciliássemos, que fizéssemos orações para esse reencontro.

Sim, nosso encontro nessa vida foi muito divino. Era muito bonito para as pessoas nos verem juntos. Onde há amor... há também essa expectativa de que vai ser pra sempre.

Bom, o fato é que não fiquei muito satisfeito com a abordagem do pessoal lá. Eu não estava nos vendo como derrotados. Então fui num outro centro que nos era também muito querido. Ele é todo organizado por psicólogos, fazia estudos de autoconhecimento. Então fui lá num domingo à noite porque sabia que era a reunião da coordenação. Eu me sentia querido por eles também. E queria ouvir a perspectiva deles. Quando eu falei, ainda com a dor embargada na garganta, "nos separamos", a reação foi completamente outra Foi uma espécie de celebração misturada com acolhimento, todos se levantaram para me abraçar com uma certa alegria dizendo: "êêê, agora vocês vão passar por uma etapa de muito crescimento". Estavam celebrando não o fim, mas o começo de uma nova etapa. E claro podiam compreender a minha dor, mas com uma outra perspectiva. Encontrei ali pessoas que já tinham vivido o que eu vivi, e que estavam felizes com o desfecho de suas próprias histórias: um olhar mais maduro sobre a biografia humana.

Fui também ver uma senhora, muito querida nossa. Uma pessoa de muito amor, que também trabalhava num centro espírita, e era conhecida por seu amor incondicional e por sua mediunidade. Encontrei com ela no corredor e contei da nossa separação. Ela parou, respirou, fechou um pouco os olhos e então olhou pra mim e falou, fazendo um gesto com as mãos. "Vocês estavam aqui." E erguendo os braços, como indicando a subida de um degrau. "Vocês precisam passar por isso para chegarem aqui. Depois vocês se reencontram, num outro nível."

Suas palavras, sua vibração, sua presença, foi muito confortadora. Me deixou diante de um novo horizonte.

E ela tinha razão.

Passei dois anos sozinho. Eu senti que precisava olhar para a forma como eu me relacionava. As questões da sexualidade que ainda existiam como certos fantasmas para mim. Tentei sair com umas mulheres e foi um fracasso. Fracasso sexual, fracasso emocional. Frustração, aprisionamento.

Nessa época um amigo me convidou e fui conhecer uma abordagem terapêutica a partir do corpo. E meus dois anos solteiro foram vividos fazendo práticas com esse centro de terapia corporal que tem a ousadia de fazer trabalhos envolvendo a sexualidade. Não é sexo. Mas é um trabalho sobre a sexualidade. É difícil explicar. Mas para dar um exemplo, havia processos que você ficava sentado em meditação, só que ao invés de ficar de olhos fechados, você ficava de olhos abertos. E na sua frente ficava uma pessoa também sentada, e os dois se olhando nos olhos. Não era flerte. Era a possibilidade de se concentrar, de ver o que acontece dentro, quando se está diante do outro. E as vezes esse era um trabalho feito sem roupa! A gente não se tocava, só se olhava. Então aprendi a observar o fluxo da mente. Primeiro vem a vergonha e um turbilhão de pensamentos (o que essa pessoa está vendo em mim? isso é certo? o que estou fazendo aqui?...). Depois vem o encanto (todo ser humano, quando você contempla por um tempo, é incrivelmente belo). Depois vêm as cargas de desejo. Só que ao não realizar o desejo e permanecer no processo, surgem outras coisas. O outro aparece na sua frente com as profundas emoções humanas temor, beleza, raiva, alegria, compaixão... uma viagem através das emoções, o outro sendo espelho para você. Ambos aprendendo a se vulnerabilizar na frente de um outro ser humano. Poder se emocionar na frente do outro. E então aprendi a observar a energia do corpo. E é muita energia! Quando há liberação do corpo você experimenta uma vitalidade impressionante. E depois de navegar por tantas emoções, revisitar conteúdos armazenados na sua história de vida, cada um fechava os olhos e se deitava no seu canto para relaxar. Ao final, um sentimento de integração, de aceitação de si, e o começo de um trabalho de transcender os apegos e vícios sexuais e todas as questões emocionais que trazemos marcadas em nossa história. Uma terapêutica que é uma verdadeira escola de sexualidade e transcendência. A busca de todas as escolas espirituais: tornar-se o senhor de si, de suas forças, ao invés de ser dominado por suas fragilidades.

O tempo passou com intensos trabalhos sobre mim mesmo. Esse foi um exemplo de exercício feito lá. Foram diversos. Um caminho de autodescoberta e de potencialização de si. Tudo acompanhado também com as sessões de análise.

Um dos frutos que alcancei foi a felicidade de estar sozinho. Passar a não precisar do outro.

Só que o que acontece é que quando você está bem consigo mesmo, se ainda tem alguma história pra você viver em relação, a pessoa perfeita aparece na sua vida. Isso é uma lei. A gente atrai e é atraído pela pessoa perfeita. Se você está em sofrimento, vai aparecer alguém que vai alimentar o seu sofrimento. Se você está bem, vai aparecer alguém que vai ser seu parceiro de jornada. E foi assim que aconteceu comigo.

Assim apareceu minha atual companheira. Minha vida de relação com o feminino recomeçou. Parceiros, intensos, felizes juntos... aos 3 meses parecia que estávamos há 3 anos de profundidade e de intimidade. Já temos 30 anos juntos?, brincávamos, tamanha a nossa sintonia. E aconteceu uma coisa extraordinária. Comecei pela primeira vez na vida a desejar ter um filho com ela. Era um desejo que não vinha da mente, nada de planejamento, era algo que vinha de dentro, do instinto. Li depois o Schopenhauer dizer que esse é um desejo da espécie, algo realmente do irracional. Com minha atual companheira houve uma conexão com esses processos mais profundos da terra, estávamos ambos nesse outro nível de escuta interna. E nesse caminho de acreditar no que virá, confiando nessa voz vinda das entranhas. E então lá pelo oitavo mês, engravidamos. Alegria! Sentimos que esse bebê era fruto do amor. Foi um transbordamento do nosso amor. Que é como sempre vai ser num futuro feliz da humanidade.

E agora que sou pai, a vida tem todas as emoções intensas que envolve esse novo amor. Que outro ser eu me tornei?! Não podia imaginar. Parece, realmente, que a vida que tive antes, foi uma outra vida, um passado muito remoto. A vida a dois também passa pelas crises. E estamos hoje numa fase bonita, superamos um onda, sabemos que virão outras... Mas o importante não é se estamos juntos ou não. Porque senão estaríamos ainda orbitando em torno do velho tabu e vamos achando que a separação é sempre uma derrota. O importante é a conexão com seu centro. E vai ficando claro quando você se desconecta.

Pra quem olha pra si, tudo que acontece é oportunidade de aprendizado.

O desenvolvimento humano aqui nessa breve vida (apenas uma bolha no rio, que num instante se cria e num outro se desfaz) precisa ser exponencial. Não podemos perder tempo.

Então, olho pra trás e lembro do dia que a minha primeira mulher disse que havia decidido se separar. Então olho pra todos os frutos que essa decisão trouxe pra minha vida. Pra quem eu pude me tornar. E para a vida que tenho hoje com minha companheira e nossa filha... e só tenho a agradecer.

E é isso que eu faço quando eu e minha primeira mulher nos reencontramos pra tomar um café e falar da vida. E ajudar um ao outro e torcer para que o outro seja feliz e complete seu processo de integração.

Sim, existe vida feliz após o casamento.

Estou escrevendo isso para partilhar.

Esse é o valor da partilha. Você simplesmente falar de você. E ao falar você mesmo se escuta melhor. E isso pode impactar no outro sem você ter pretensão de dar conselhos. Mas... uma partilha enriquece quem ouve... abre portas internas. Então é como o ritual dos nativos americanos: o bastão da fala. Enquanto eu seguro o bastão eu falo daquilo que está verdadeiro para mim, aquilo que vem do coração.

Não quero mesmo que você saia do seu casamento e vá fazer o mesmo caminho que eu fiz.
Nem quero que esse texto seja um manifesto em favor do divórcio. Não é isso.
É só um jeito possível de olhar as coisas.
Eu acho que só uma coisa é necessária nisso tudo que chamamos problemas da vida.

O trabalho interior.

Um trabalho sério de encarar a si mesmo. De iluminar, através da simples observação, as sombras de dentro. De ver também e potencializar as luzes de dentro. E acreditar em si. Um trabalho gradativo de descascar ilusões, que a medida que você descasca, sua vida dá um salto e você se depara com outros desafios e tem a oportunidade de ver cascas mais profundas, sombras mais escuras, e luzes mais brilhantes... indo para o centro.

É um processo gradativo de autoconhecimento. De alinhamento com a escuta dos seus desejos (eu digo escuta porque não é possível realizar todos), a coerência com o que você veio fazer no mundo e aonde você quer chegar e as suas possibilidades de se entregar numa relação e amar o outro, nisso que é um exercício para uma entrega ainda maior, um amor ainda maior, a um Ser ainda maior.

É uma expansão de consciência, de sabedoria.  Hoje vejo nossa filhinha num processo gradativo de desmame. Mamar é a maior fonte de prazer e conforto de um bebê. E aos pouco o que está acontecendo? Ela diz que quer mamar, e chora, mas na verdade ela já não está se contentando, na verdade ela quer um outra coisa. Só que ela não sabe ainda o quê. O peito da mãe é o conhecido. Então ela diz que quer o peito. Só que ela quer algo mais. E o processo dela é viver até encontrar esse algo que possa saciar seu querer. E assim a vida está só começando até chegar na idade que eu estou e você está. A gente quer algo mais, mas não sabe exatamente o que é. Então a gente pensa que é isso que está na nossa mão. Só que não é bem isso. Não é o bastante. Por isso a vida é um mistério, uma jornada em busca do desconhecido. O que saciará minha filha além do peito? O que saciará você, além disso que já não está te satisfazendo? Essa resposta não pode vir da mente porque a mente só pensa o que é conhecido. Você precisa se lançar no desconhecido que é viver. E nesse processo você precisa ouvir o Espírito.

Faça seu trabalho interior.
O resto vem por conta própria.

Isso que o meu Mestre falava quando dizia: busca primeiro o Reino de Deus e todo o resto vem por acréscimo.
Isso que minha psicanalista falava quando meus trabalhos prosperavam de um jeito suave e a vida sorria para mim e tudo dava certo. Ela dizia: "eles acham que você tem sorte. Mas eles não sabem o trabalho que dá." O trabalho interior é trabalhoso sim. Mas é o único trabalho real.

Termino esse texto presenteando os leitores com as palavras inspiradoras de um dos meus atuais mestres do yoga, essa disciplina (sim, gosto de ter disciplinas) na qual venho me aprofundando em busca da unidade por trás desse mundo dual.

“O mundo não é bom nem mau; cada homem constrói seu próprio mundo. Aquele que não enxerga pensa num mundo duro ou macio, frio ou quente. Somos uma mistura de felicidade e sofrimento, como já tivemos ocasião de comprovar centenas de vezes em nossa vida. Em geral os jovens são otimistas e os velhos, pessimistas. Os jovens têm a vida diante de si, os velhos queixam-se de que seu tempo já passou; centenas de desejos insatisfeitos debatem-se em seus corações. Contudo ambos são tolos. A vida é boa ou má de acordo com o estado de espírito com que a contemplamos. Em si mesma, não é nada. O fogo, em si mesmo, não é bom nem mau. Quando somos aquecidos por ele, dizemos: “Como é lindo o fogo!”Ao queimar-nos os dedos, nós o condenamos. De acordo com o uso que fazemos dele, ele nos causa uma sensação boa ou má. O mesmo se dá com o mundo.”
Swami Vivekananda

Eu sou André e assim falei. Hey!


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Yoga de Rua e Amor: preparação para o segundo aniversário.

Olá queridos,
quero de coração agradecer por cada um que está aqui envolvido nesse coletivo.
O yoga de rua é um coletivo onde cada um dá o que tem, o que pode, e no fim das contas percebemos que nossos alunos ficam felizes com o resultado. E nós também.
Então eu aqui agradeço pelos benefícios que o yoga de rua traz para mim, um lugar de prática gratuita de yoga, que é como eu gosto de praticar e sinto uma imensa coerencia. Acho que o néctar espiritual, a transmissão dessa fonte mais pura da riqueza eterna que vem de Deus, acontece sempre num contexto outro que o das transações comerciais. Isso é coerente com o que meu coração diz, quando por exemplo, olho para os mestres do passado, todos aqueles que eu considero mestres, como Jesus, Buda, rishis anônimos da floresta, Francisco na Toscana, Teresa em Calcutá, Paramahansa Yogananda e seus mestres, Sri Ramakrishna, Ramana Mararshi... transmitiam seu amor e a sabedoria de seus corações gratuitamente. E não é que não exigiam nada de seus discípulos, mas, a entrega e a seriedade no caminho nada tinha a ver com dinheiro. Até outros mestres que admiro e que souberam usar a relação das pessoas com o dinheiro como parte da exigência na relação, Gurdjeff, Osho, Lacan... transcenderam essa coisa toda e só estavam jogando o jogo na relação com seus seguidores. Então sinto a maravilha de estar num projeto que sobrevive de doações. E fico, internamente, sonhando, com uma forma de viver assim... uma coerencia societal na ecologia do amor... assim como o sol se doa ao brilhar e a lua, e o mar, e as árvores, servem a Vida na Terra sem cobrar nada... quem sabe um dia possamos viver assim como humanos, uma sociedade sem dinheiro? Penso no yoga de rua como um coletivo que possa vibrar na coerência desse tempo possível. Uma outra economia, assim como uma outra política, ou seja, uma outra gestão coletiva.
E quero agradecer também porque através do yoga de rua a gente está conseguindo, de uma maneira mínima que seja, fazer o amor chegar até as pessoas que passam por situações imensas de desamor. Nossos amigos que estão na rua... duro destino!... as condições da rua são de pouco amor, as relações são hostis demais... e, quando olhamos para o passado deles, vemos um histórico de muito desamor. Não que sejam vítimas... mas olhos e vejo pessoas muito traumatizadas nas suas relações afetivas, especialmente familiares. E aí, através do yoga de rua, conseguimos de alguma maneira criar laços, sorrir juntos, saber o nome das pessoas e permitir que essas pessoas que estavam em grande solidão e indiferença, possam conhecer outras pessoas e assim, aos pouquinhos sinto que as feridas podem ir sendo curadas. É maravilhoso quando chego na roda, ou mesmo antes, no café, e as pessoas perguntam pelos professores, se vem, como estão, etc.
Então agradeço, por mim e por eles, que são parte de mim.
E agradeço a parceria porque sozinho eu não poderia ajudá-los, nem uma centésima parte do que em grupo conseguimos.
Se formos falar na presença espiritual que o Divino faz cair como chuva em nós ali nas práticas, aí mesmo só tenho a agradecer porque isso eu não poderia mesmo produzir. Sou, assim como todos, um vaso que tenta receber e perceber a graça. E agradeço ao Divino em nosso nome.
Então eu venho refletindo sobre a natureza do nosso grupo, desse projeto. E de como ele se torna, pelo menos para mim, um lugar de prática espiritual, de exercício mesmo do amor, naquela coisa mais básica que é olhar minhas sombras ao lidar com o diferente e, de alguma maneira, perceber e trabalhar em mim mesmo, a cegueira do meu coração ao ainda acreditar que estamos separados. Isso vale quando olho para as pessoas marcadas pela rua, com seus temperamentos explosivos, magoáveis, sua timidez, seus vícios escancarados e seu aspecto corporal mesmo, seus fortes cheiros, a sujeira de seus pés e suas posturas que tendem a arquear ao chão e isso vale igualmente quando entro em relação com os membros do coletivo, que chegam para servir, que sempre encontram portas abertas e, cada um do seu jeito, traz uma maneira de olhar as coisas, um jeito de ser, um estilo pessoal, um jeito de pensar, uma forma de demonstrar seu comprometimento e tudo isso vai me fazendo perguntar ao meu coração: por que julgar tanto? Por que não simplesmente amar as pessoas?
Então o processo está sendo maravilhoso. E estou descobrindo caminhos de gratidão e de admiração pela riqueza e pelo potencial de cada um. É maravilhoso trabalhar num projeto com parceiros dos quais sou fã, a quem gosto de me colocar como aluno ali e aprender tanto.
Estamos caminhando para dois anos de vida. No dia 14-12-2015 foi a "experiência piloto".
Temos alguns aprendizados. Dá até para abrirmos uma roda para trocar esses aprendizados.
Aqui, nessa pequena carta, quero dizer de um que considero a essência da essência.
Descobrimos que para dar certo precisa de amor.
Esse é um trabalho essencialmente de amor.
O que quero dizer?
Tem que vir pra se doar.
Passo 1 do amor: o amor universal: olhar as pessoas com aceitação incondicional. Ou seja, ter olhos de ver Deus no outro. Esse é o amor que acontece dentro de nós. O sentimento de amor que move uma atitude de abertura e amor por todos os seres. Na verdade, aqui reside o Ser em sua manifestação. Você, aí dentro, é Amor. Então, seja você. Livre da armadura construída na história de vida. Então, bem vindo ao caminho de cura. Deixar a armadura cair e vibrar a essência amorosa que somos todos. E isso nos leva ao passo seguinte...
Passo 2 do amor: o amor concreto, nas relações: criar laços, vínculos de afetividade. Relação de amor. Envolve presença, interesse pelo outro, conhecer o outro. Bem vindo ao campo perfeito para esse exercício. As pessoas que vivem nas ruas estão no fundo do fundo do fundo do poço. A "rua" é o último passo que o sujeito dá na vida após uma longa história de rupturas afetivas. O lugar da solidão é a rua. Então aqui mora o maior desafio do projeto. E aqui você é convidado a amar.
Dar aulas. Amar.
Participar das aulas. Amar.
Conversar com as pessoas. Amar.
Estar ali em silêncio, em paz. Amar.
Fotografar. Amar.
Preparar o alimento. Amar.
Servir o alimento. Amar.
Em casa, meditar em beneficio dos alunos. Amar.
Orar, orar, orar muito pra que a luz possa finalmente se fazer na vida dessas pessoas. Penso nesse momento no jovem C. que tem toda uma questão familiar complicada, veio pra cidade grande, foi preso, saiu, nos encontrou, teve esse caso de amor com a gente, mas agora anda sumido, vem de vez em quando e mal consegue ficar nas aulas, e quando fica, fala muito... qual a situação mental dele nesse momento? Eu não posso desistir de acreditar que através do projeto ele pode tornar-se saudável e feliz. Nós conhecemos a sua essência. Seu coração bom, sua pureza... a polícia conhece a armadura dele. Então o que mais a gente vai fazer por ele?
Tudo que te faça entrar em relação com as pessoas. Amar.
E mesmo num trabalho pelo projeto como divulgação, cuidar das finanças, etc. Você pode fazer isso com envolvimento afetivo, olhar as fotos, ver os alunos, vibrar por eles, acompanhar a evolução de alguns deles. Amar.
Participar das reuniões da equipe e descobrirmos coletivamente formas de "tocar" as pessoas. Amar.
Então acho que esse é o grande aprendizado.
Me lembro que a Bárbara fez um belíssimo trabalho enquanto passou pelo projeto.
Qual a marca da Bárbara? Amor. Ela começou frequentando todos os dias, sempre que podia. Depois  assumiu a turma de segunda-feira. Vinha toda semana. Quando não conduzia a prática estava ali na coordenação.
Eu participei das aulas dela. Excelentes. Era diferente porque tinha mais ênfase em pranayamas. No início me perguntei se isso daria certo, se os alunos acompanhariam tantos exercícios sentados de respiração... o tempo passou e algo aconteceu... a turma sempre perguntando por ela. O que ela fez? Criou laços. Se doou.
Amor.
É disso que essas pessoas mais precisam.
Vem doar. Vem se doar. As pessoas precisam muito do que você tem debaixo da armadura.
Elas não precisam de nada nada nada do que você tem a oferecer a partir da armadura.
Mas se você puder usar a armadura que, nesse momento, é o que te faz caminhar, para vir para cá, e quem sabe mostrar ao menos seus olhos por sob o elmo... talvez a alquimia desse encontro possa te fazer deixar pouco a pouco a armadura de lado e acostumar-se a ser amor.
Assim o Yoga de Rua faz dois anos.
Um convite para o amor.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Yoga de Rua e o Evangelicalismo



Quero trazer algumas reflexões sobre a experiencia de levarmos para a população de rua a filosofia e a prática do yoga, especialmente quando parece acontecer um certo confronto com uma mentalidade marcada pelo fanatismo religioso, do tipo bíblico, "apegado a letra", que é a marca contemporânea do movimento conhecido como "evangelical". O evangelicalismo se define como "protestante", mas sabemos que há diversas variantes do movimento reformista que não são marcadas pela intolerância e pelo fanatismo irracional e moralista que ganhou corpo em nossa sociedade.

É muito comum nas grandes cidades, a mentalidade religiosa das pessoas que vivem na rua estar fortemente marcada pelo fanatismo religioso. A forte noção de pecado, a consciencia de culpa por se sentirem "afastados" e um grande "apego a letra" quando a conversa caminha para assuntos de religião.

No Yoga de Rua temos vivido isso em algumas ocasiões e hoje ocorreu um diálogo que terminou deixando as pessoas cansadas. "Tirando o debate religioso foi tudo bem", disse um dos participantes ao final do encontro, trazendo-nos um feed-back espontâneo.

Queria trazer algumas reflexões.

Estamos estudando o capítulo sobre mantras do livro Meditação e vida espiritual de Swami Yatiswarananda. Ao final da prática, fazemos esse estudo teórico, que fala sobre a prática da recitação do Om, dos nomes divinos, como caminho para a realização espiritual do yogui. Já tivemos três encontros e hoje o tópico falava sobre a prática de japa em diferentes religiões mundiais.

Yatiswarananda é um monge da ordem Ramakrishna, um mestre que é exaltado pelos seus seguidores, dentre outras características, por ter vivido e realizado Deus em diferentes caminhos espirituais. Defensor do pluralismo, dizia que todas as religiões são caminhos que levam a Deus. Assim, hoje estudamos a pratica da repetição do nome de Deus no Cristianismo (oração de Jesus), a prática sufi (Islã) de repetição do nome de Allah, entre os seguidores da escola de Al Ghazali, assim como a repetição do nome de Buda entre seguidores de algumas escolas Mahayana, e da escola Shin, o budismo japonês.

E enquanto líamos um dos nossos alunos foi questionando alguns pontos e nós íamos respondendo na medida do possível. Ao final do texto ele voltou a questionar o fato de que a repetição do nome pode ser uma prática que "aborrece a Deus" ao invés de agradá-lo.

O estudo durou 37 minutos. E grande parte foi ocupado com a participação de nosso companheiro que em determinados momentos encadeava uma citação a outra falando de diversos aspectos da questão da oração de acordo com a "palavra de Deus", indo além do tema que estávamos conversando e ele mesmo percebendo que seu raciocínio estava se perdendo e saindo do foco, falando da oração dos presunçosos, da idolatria do povo quando Moisés subiu no monte, etc.

Fomos contra-argumentando. Tentando mostrar que existe um mundo para além do tipo de interpretação bíblica a qual ele estava ligado. Ele parecia entender. Mas, de repente, ele retomava os mesmos argumentos como se não tivéssemos saído do lugar. E todos fomos ficando cansados, até o ponto em que silenciamos para ele falar sozinho e se escutar.

Esse tipo de conversa sempre me deixa muito inquieto, muito intrigado. Estou numa pesquisa a respeito. Não é a primeira vez que acontece isso no yoga de rua. Estou querendo aprender com as situações. Então aqui vão algumas considerações:

1) algumas palavras parecem "acender" o furor fanático na pessoa. No caso, o texto em questão começava com a seguinte frase: "O mandamento bíblico “não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão” e a denúncia de Cristo a vã repetição podem ser interpretadas de diversas maneiras."

Apesar do autor começar já convidando para as "diversas maneiras", nosso companheiro só conseguia ler "o mandamento bíblico". Isso parecia "nublar" a sua mente. Então fazer menção a textos bíblicos em nossos estudos é correr o risco de pisar num verdadeiro "campo minado".

2) ele não sabia o significado da expressão "em vão". Ele disse: "vão significa repetição, não é?" Eu expliquei que vão significa "sem propósito", "à toa"... Eu quis explicar que repetir o nome com o propósito espiritual poderia não ser "em vão". Mas ele parece não ter entendido. Ou seja, sua mente parecia estar "ligada no modo fanático" e ele não conseguia pensar "fora da caixa".

3) Ao que parece, o discurso fanático se instala a partir de certa "maneira de interpretar" das lideranças religiosas e as pessoas repetem e repetem sem refletir a respeito do próprio texto. Nem a literalidade da "palavra" é respeitada, uma vez que se abre mão da "palavra" e se adota uma interpretação particular das lideranças, mesmo em contradição com a "palavra". 

4) por diversas vezes nós convidamos para a "diversidade", lembramos que há culturas que não (re)conhecem a Bíblia hebraica, e convidamos a uma prática que ele poderia seguir ou não, mas que poderia trazer benefícios se fosse praticada. Acalmar a mente nas tempestades, retomar a conexão com Deus,etc... ele pareceu ouvir... mas em seguida retomou a "metralhadora" de dúvidas e medo de estar "aborrecendo a Deus".

5) Um dos participantes levou a ele a seguinte pergunta: "quando você faz o Om, você sente que está aborrecendo a Deus?" Nessa hora ele parou para pensar. Não respondeu. E aí lembramos a importância do "sentir", da "experiencia pessoal".

6) Uma característica do fanatismo é a fuga do proprio sentimento. Isso parece ter relação com o fato de que a pregação do tipo fanático sempre reprime o sentir humano como fonte do pecado.

7) Ao final da conversa levamos a seguinte pergunta: "como é que a gente pode se entender aqui?". Nosso companheiro respondeu: "ouvindo a consciencia. Minha consciencia está dizendo que eu deveria escutar mais e falar menos." Ficamos espantados ao ouvir isso! Ele mesmo reconhecendo seu exagero. "Eu estou falando muito e ouvindo pouco" E citou a Bíblia: "falar é prata e ouvir é ouro". E perguntamos: "onde está sua consciencia?" "Aqui - apontou para a cabeça - não está no meu coração porque o coração é fonte de erros." E perguntamos: "E você consegue ouvir sua consciência?" E ele respondeu: "a consciência é Deus dentro de mim. Sempre sabe a verdade". E assim ficamos um pouco em silêncio. Depois de disparar sua metralhadora de verbalidades ele expressa uma dos principais verdades do yoga: "a Unidade entre Deus e a interioridade humana". E admite seu proprio erro de ter ficado falando muito. Encerramos o estudo. No entanto, logo em seguida, recomeçou a falar, e a citar a Bíblia, etc.

8) Depois de tudo isso, e do cansaço que a conversa toda nos causou, fico me perguntando se não seria mais produtivo cortar logo de início quando a pessoa entra do "discurso da ideologia fanática bíblica" dizendo assim: "olha, aqui a gente vem aprender com os mestres do Yoga. É diferente do que os pastores que você ouviu na igreja. Se você quiser o saber dos pastores, vai lá. Se quiser ficar aqui, aproveita para ouvir o que os mestres do yoga têm a dizer." E assim tentar evitar falar tantos verbos em vão.

9) A mente fanática para ser um "tipo de mente" se podemos dizer assim, que o sujeito entra em determinado momento, como que numa frequencia de radio. Sabemos que a mente oscila em diferentes níveis, mais ou menos concentrada, amorosa, alegre, triste, raivosa. Podemos usar várias classificações. E aqui parece haver um certo gatilho que põe o sujeito num complexo intelectual-fanático, e costuma demorar-se um tempo ali, até que possa sair e respirar novamente. A pessoa consegue ter conversas inteligentes, consegue ter insights valiosos, então, subitamente entram as nuvens do fanatismo e ela vira um "repetidor" daquela ideologia. Ao que parece o fanatismo é do tipo intelectual, com raciocínios "lógicos", precisos, uma citação que prova o argumento, num sistema racional lógico fechado em si mesmo. Esse tipo de mente deve existir em todos os humanos, mesmo os que não são dominados pelas malhas da patologia religiosa, mas de todos os "teimosos" e "donos da verdade".

10) Estou refletindo sobre a importância do estudo no caminho do yoga. Porque ali no yoga de rua enquanto fazemos o trabalho corporal, as meditações, parece que tudo vai bem. Os alunos saem com a sensação de paz, os corpos vão respondendo ao longo do tempo, percebemos conquistas. E vamos também estudando, e o pessoal começa a falar sobre o yoga, de como traz resultados práticos, de como está mudando a vida deles, estão mais calmos, etc. E aí, parece que "estamos abafando" e de repente, um conversa dessas... parece que "desabamos". Então sinto que o estudo é importante para haver uma trabalho integrador do processo. O corpo vai se abrindo. A mente se expandindo em diversos aspectos. Mas há terrenos ainda nebulosos... e parece que em níveis muito básicos, por exemplo, a capacidade de interpretação de texto. De ler a frase e entender o que está sendo dito. Uma questão que não é típica do yoga mas do "analfabetismo funcional", uma capacidade da potência humana do pensamento, da reflexão. E fico me perguntando: uma vez que o yoga visa elevar as potências do humano ao seu grau máximo, se não temos um trabalho "básico" a fazer aqui na nossa dedicação ao processo do grupo.

11) A pessoa transita bem em diversas situações da vida enquanto não "aciona" a "mente fanática". Ela toma café da manhã com os espíritas, recebe passe, faz oração e respeita as orações católicas, pratica yoga, repete o Om... mas se entra no terreno do debate intelectual... sente-se culpada por tudo isso. É como uma segunda personalidade, que renega a primeira. Mas que passa, assim como todo estado mental.

11) Na condução de um grupo de estudo, saber interromper as verborragias pessoais, convidar a um silêncio coletivo, parar um pouco, se escutar mais.

12) Reconhecer a limitação da discussão intelectual, dos argumentos e contra-argumentos no campo do convencimento... o estudo do yoga visa despertar sementes num nível mais profundo que o intelectual. No entanto, não desprezar a conversa e a possibilidade de, a partir da potência do pensamento, motivar a vontade e o sentir, e tangenciar, nesse diálogo, a consciencia observadora que a tudo assiste impassível.

- Texto e vivência em construção - 


domingo, 8 de outubro de 2017

Aprendizados da paternidade


Queridos, depois de quase 1 ano e meio como pai, aqui vai um primeiro texto.
Alguns me perguntam: “e aí, muitos aprendizados?”
E, no geral, não dá para explicar muito e nem sempre me vem à mente tantos dos aprendizados. Nem sempre dá tempo de conversar.
Então resolvi escrever.
Gabi e eu vamos começar a fazer um movimento aqui de partilhar essas experiências e abrir conversas para trocarmos mais.

Leiam com amor. Porque essas experiências, e reflexões sobre as experiências, nasceram num processo visceral de muito amor, a partir de um enorme encantamento pela graça divina em forma humana e um desejo de que as crianças possam estar cercadas do mesmo nível de pureza que elas trazem ao mundo consigo.
Um amor não só pela minha filha, mas por todas as crianças.
Um amor pelo ser humano.

É difícil resumir em poucas palavras, mas creio que posso dizer assim:
a criança vem ao mundo tão pura (ou seja, tão natural, tão aberta às experiências e descobertas, tão confiante em tudo e todos, tão sem traumas) e entra em relação com adultos tão impuros (ou seja, que perderam a espontaneidade, estão desconectados da natureza, de si mesmos, tão desconfiados e medrosos, tão cheios de marcas de dor e de compulsões) que o grande aprendizado da educação é:

aproveite esse serzinho aí para você se recentrar em si mesmo, conectar-se, começar a estranhar a loucura do mundo social, a insanidade mesmo dos adultos, e aproveite para se redescobrir.

Então, olhando para mim mesmo, para minha relação com esse serzinho de luz que veio morar aqui em casa, ao mesmo tempo olhando para as relações dos adultos com suas crianças nas pracinhas, parques e escolas… não é difícil tirar algumas lições, estar atento aos perigos da desconexão, do desperdício da oportunidade e da cotidiana agressão que fazemos às crianças.

Claro, é dessas agressões que vamos tornando-as adultas como nós mesmos, ao invés de nos convertermos em crianças como elas.

As pessoas falam muito de amor. Mas falam pouco das relações. E há sim um sentimento transbordante de amor pulsando em cada pai e cada mãe, que os faz nunca mais dormirem sem estar atentos ao sonzinho vindo da caminha ao lado… mas quando olhamos as relações, aí que nos pegamos em desconexão total… amamos e odiamos… nos descontrolamos porque queremos controlar absurdamente o outro… na hora mesmo da relação, descobrimos em nós, muitas marcas, emoções estagnadas, condicionamentos que trazemos mais profundamente e… é na relação que nos pegamos contradizendo todo o sentimento de amor. E passamos a cometer, sem perceber, uma série de agressões à infância.

Então esses aprendizados da paternidade/maternidade têm a ver com um processo longo e contínuo de autoconhecimento, coragem para jogar luz nas próprias sombras e o desafio de se transformar.

Agradeço muito os grandes aprendizados que puder ter antes de nossa filha nascer, nas rodas de conversa com as pessoas que estão vivendo esse processo que está sendo chamado Educação Viva e Consciente, em especial Ana Thomaz e Ivana Jauregui. Então muito do que vou falar aqui vem sendo dito por essas pessoas que passei a admirar por me parecerem muito coerentes e autênticas em suas relações com as crianças (e, daí, com adultos também).

Verdade. Verdade. Verdade. Essa parece ser uma palavra chave aqui, para dar conta do processo de construção da autenticidade. Adultos autênticos, crianças autênticas. E como elas são autenticamente puras… possamos assim preservar essa pureza por mais tempo.

Então, aqui estamos Gabi e eu produzindo uma lista, umas dicas por temas que são muito comuns nessa relação adulto-criança. Que possa servir como termômetro, sinais de alerta da desconexão.

  • Jogos de poder/chantagens/ameaças: aparecem em frases como “se você fizer isso, eu vou te levar pra casa”, “se você não emprestar isso para ele, ele não vai te emprestar também” e no geral, as ameaças não são cumpridas, o que é, na verdade, uma mentira. Nós, aqui em casa, estamos optando por uma relação sem chantagens, em que quando tenho que dizer não, eu digo não. E a criança respeita porque confia em mim, na minha autoridade, porque não há histórico de mentiras e negociações com chantagens. Não preciso entrar num jogo de poder, nem criar uma regra em que eu finja transferir a decisão para ela. De que adianta a criança fazer o que você quer por medo das consequências que você mesmo ameaça impor?

  • Comparações/competitividade: “tá vendo, João?, a Maria faz assim…” “A Joana já sabe falar tudo, enquanto o Paulo é muito devagar na fala”. Cada pessoa tem uma singularidade, seus pontos fortes e suas fraquezas. Ser comparado só ajuda a desenvolver inveja, não potencializa. Por trás das comparações passo a mensagem de que não aceito incondicionalmente meu filho, não respeito seus processos internos. Uma boa opção para quando uma criança vier te mostrar um feito dela é você olhar verdadeiramente e apoiá-la, em sua singularidade: “você fez bolas laranjas”, “você fez riscos coloridos”, “Você conseguiu subir no banco”, etc. Apoie, celebre, se surpreenda com ela, mas não a nomeie com adjetivos que irão limitar sua autenticidade.

  • Repressão das emoções: "engole o choro!" quantas vezes já ouvimos isso? ou, a criança grita de raiva ou mesmo de alegria, espantada com algo inteiramente novo. O adulto no geral fala: “não grita”. Mas ela está sendo espontânea, e o adulto, em geral, não sabe mais ser espontâneo com suas emoções. E, como o adulto tem ali a autoridade, ela começa a achar que precisa se reprimir mesmo. Procure ver o mundo com um olhar inaugural, assim como fazem os pequenos.

  • Minimização dos sentimentos: quando ela está chorando é comum um adulto dizer: “não foi nada”, ou “já passou”, mas na verdade a criança está sentindo algo, e ainda não passou. Se você tem real empatia talvez você diga: “tá doendo é? diz onde dói.” ou “hum… machucou? tá doendo?” Os sentimentos precisam de acolhimento, não de repressão. Adultos que acolhem seus próprios sentimento vão ter mais facilidade aqui. Mas em geral, a inabilidade em lidar com a dor faz com que os adultos queiram que a criança não chore quando se machuca. Ou se apressem em consolar: “vai passar, vai passar.”

  • Exposição dos sentimentos da criança: isso é muito comum e passa mesmo despercebido, o que mostra como somos insensíveis fazendo com elas o que não admitiríamos que fizessem conosco… “ah, que lindo, ela ficou com ciúme!”, “olhem, ficou com vergonha”.

  • Domesticação/moralização: as crianças são pessoas cheias de potência, intensidade, mas os adultos parecem querê-las domesticadas, num moralismo sem sentido e sem coerência. “empresta, filho. Deixa ele brincar também”, “você já brincou, agora é a vez dele”. Quando a criança está absorta no que faz, claramente não quer emprestar e está num movimento de defesa do seu espaço. E essa exigência de emprestar, dividir traz muita incoerência e desconexão. A criança sente algo como: “estou envolvida e debruçada na exploração desse brinquedo, mas aparece um adulto e me pede que eu interrompa este processo e entregue o brinquedo para outra criança (pois assim ele será bem visto pelos outros adultos)” A criança chora e não quer interromper o seu processo, mas com a repetição desse pedido, ela vai aprendendo a não escutar os seus desejos e cumprir ordens sorrindo”. O mesmo vale para quando os adultos querem resolver os conflitos obrigando que a criança peça desculpas para a outra. “pede desculpas”, “dá um beijnho e um abraço”. Pura convenção sem sentimento real. O que estão ensinando assim? A viver de aparência, a mentir sobre seus sentimentos até que não consigam mais escutá-los. Coisa que a maioria dos adultos faz bem.

  • Exigências e desqualificação: “você já não é mais um bebê”. Temos buscado estar atentos ao tempo, ao desenvolvimento, aos sentimentos. Em geral, quando exigimos mais do que a criança pode dar, isso só tende a trazer frustração, sentimento de rejeição, de inadaptação às expectativas dos pais. Se a criança mais velha está chorando como um bebê, talvez seja mesmo um momento emocional de regressão, numa busca daquele acolhimento perdido, daquele carinho que ela vê as crianças menores receberem. E isso segue vida à fora: já não é mais criança… já não é mais um adolescente… já não é mais um jovenzinho… até que, quem sabe um dia, tarde demais, quando se arrepender da vida de mentiras que teve outra Senhora lhe dirá: “você já não está mais vivo”.

  • Consumismo: excesso de brinquedos, em especial brinquedos com muitas cores fortes,de plástico, pouco naturais ou eletrônicos… nós temos preferido que as crianças inventem seus brinquedos, usem os brinquedos umas das outras,  interajam com a natureza, ela é abundante em brinquedos que as crianças podem explorar e reinventar. Quando as crianças levam muitos brinquedos para as pracinhas, por exemplo, notamos que os choros são mais recorrentes no local. Pracinha é lugar de criança brincar, elas exploram tudo que há por lá, inclusive os brinquedos que as outras crianças levam, mas aí entram num terreno que envolvem as “posses” e os adultos responsáveis não sabem como lidar e vão do extremo de não querer emprestar, porque foi caro e pode estragar ou forçam a criança a emprestar por uma convenção social do que é bem visto pelos outros adultos da pracinha. O resultado é choro na certa. Além disso, brinquedo comprado não se deixa explorar, reinventar, se desfazer e refazer, e essa é a natureza da criança, ela está descobrindo o mundo, precisa mergulhar nele. Se desmontar brinquedo comprado, aparece adulto e fala não.

  • A questão da propriedade privada: “é dele, filho, respeita”, “dá o brinquedo para ele”. Nós optamos por uma relação com os objetos em que não se define a propriedade, mas o respeito por quem está brincando no momento. Então evitamos que a criança aja no impulso de tomar o objeto do outro e, ao mesmo tempo respeitamos o movimento de uma criança defender o objeto com que está brincando quando a outra se aproxima. Dizemos assim: “está com ele, agora”, independente de quem seja o “dono”. Depois de brincar o quanto quiser com o objeto, a criança espontaneamente dará para o outro ou abandonará o brinquedo, ou seja, ela entrega porque verdadeiramente quer dar e, não por uma cobrança dos adultos, algo que é imposto de fora para dentro, hierarquicamente.

  • Desqualificação: “você não sabe isso”, é uma frase normalmente que nasce do medo do adulto, ou da impaciência… outras parecidas: “você não consegue”, “você não é forte pra isso”, "vai cair", "vai se machucar"...

  • Medo: o limite da criança não deve ser o limite do medo do adulto. Mas o limite da sua autorresponsabilidade em construção. Cabe ao adulto zelar pela segurança da criança, mas precisa estar muito atento às habilidades que a criança já desenvolveu e estar atento aos seus próprios medos, cuidando para que a criança possa se desenvolver sem os mesmos medos dos adultos.

  • Rotulações: a mãe com medo do filho machucar a outra criança, o filho ainda está no colo e a mãe vê o menino se agitar para tocar, interagir com a outra criança: "opa, cuidado, você é estabanado, é um ogro, você não sabe controlar sua força..." e por aí vai. Quando a criança cresce mais: "ai, como você é chato!"

  • Importância da clareza: é importante estar claro o que pode e o que não pode, quais os limites, o que o adulto vai deixar e o que não vai deixar de maneira nenhuma… é realmente estranho o jogo de barganha e insistência que as crianças fazem com os adultos que por sua vez vão cedendo, porque no fundo não sabem o que querem, ou o que é importante de verdade.

  • Assepsia, o exagero da limpeza (medo da doença): “não põe a mão na areia”, “não coloca o graveto na boca”, então por que o adulto levou a criança para um lugar de natureza? A lógica da assepsia é uma desconexão total com a nossa própria natureza. Somos seres naturais, desde do início dos tempos co-evoluimos com toda natureza, nosso corpo é adaptado e perfeito para interagir com ela. Quando não estamos nesta relação, adoecemos. Achar que o melhor para as crianças é ficar num local completamente asséptico é uma grande inversão de valores, sintoma de uma sociedade desconectada com sua própria essência. Coloquemos nossas crianças para brincar com a terra, poças, gravetos, folhas, minhocas... sem medo, mas com zelo e afeto.

  • Elogios e recompensas: “muito bem!”, “ai, que lindo!”, por melhor que seja a intenção isso ajuda a criança a fazer as coisas com o interesse de agradar o adulto e começa a ir se desconectando da real fruição autentica da atividade. Quando uma criança faz um desenho e vem te mostrar e você traz adjetivos como lindo, bonito,... a criança passa a sempre querer fazer desenhos que ganhem os seus elogios, ou seja, repetir e procurar os desenhos que esteticamente a fazem ganhar mais atenção e aval dos adultos; perdendo a autenticidade e criatividade de produzir algo inédito a cada instante, independente da estética ou aprovação. Imagine ainda, se você faz esse tipo de elogio na frente de outras crianças (por exemplo, numa escola), rapidamente, as outras crianças também querem receber o mesmo elogio e começam a copiar o desenho que ganhou atenção. Resultado: despotencialização em massa. Se a criança não consegue fazer os desenhos que ganharam elogios, aos poucos, começa a se sentir inferior. 

  • Atitudes diretivas: “faz isso”, “vamos ali”, “olha aqui isso” como se a criança precisasse de um guia para sentir, experimentar o mundo. Muito pelo contrário, se o adulto observar a criança em silêncio vai perceber, através dela, como ele mesmo pode perceber e interagir com as coisas de uma forma nova, original. Nessa repetição de intervenções, aos poucos, a criança vai aprendendo a olhar para o outro (p/ fora) para saber o que ela deve fazer, e vai perdendo a habilidade de olhar pra si mesma (p/ dentro) e sentir o que o seu Ser quer naquele instante. Afinal, sempre intervieram nos processos dela e pediram que ela fizesse coisas que agradasse aos adultos...“bate palminha”, “sorria”, “canta parabéns”.

  • Querer ensinar como faz: calma! O aprendizado tem seu tempo. Não tire da criança a chance de ter o próprio insight. E, ademais, quem disse que o seu jeito é o único jeito de fazer as coisas? Lembra como as crianças se divertem com os embrulhos dos presentes? Um brinquedo de montar não necessariamente precisa ser montado, pode virar um foguete espacial. Espere, silencie e observe a criação da criança.

  • Paixão autêntica: se um adulto tem paixão por algo, que exerça sua paixão próximo da criança, isso é um contágio altamente positivo. As crianças percebem com nitidez quando um adulto está querendo entretê-las ou quando está realmente interessado no que está fazendo. Sua paixão produz uma aura que contagia as crianças. Elas podem se interessar pelo que ele está fazendo e, sobretudo, aprendem a continuar seguindo seus próprios corações.

  • Pressões/conveniências sociais: estar atento ao fato de que a maioria dos impulsos dos adultos tem a ver com o que os outros adultos em volta podem pensar, julgar. Muitas vezes, agimos no impulso de fazer uma “justiça” esperada pelo que eu acho que o outro acha que é certo.

  • Vergonha: a única coisa que deveríamos ter vergonha é de nos envergonharmos. Porque a opinião/o julgamento do outro é importante para mim? Eu não tenho certeza do que eu acredito, desejo, sinto?

Relacionar-se de maneira viva e consciente pode ser uma chave para o autoconhecimento e um caminho de autenticidade.

Esses são alguns dos aprendizados… um processo contínuo. A gente tem muito que conversar.

Esse texto é só pre-texto para uma conversa mais franca, para uma aventura de auto-descobrimento maior.

Estamos sentindo vontade de conversar mais, porque nos dói ver as crianças, tão puras, tão massacradas por tantos estímulos, direcionamentos, faz isso, faz aquilo, não, não, não… num mundo que, com certeza, não se adapta para recebê-las, adultos que estão sofrendo e não sabem o que fazer com elas.

Li uma frase da Ivana no livro dela sobre a Escola Inkiri que dizia assim: "Uma criança não tem que aprender a defender-se ou ser forte neste mundo. O MUNDO TEM QUE APRENDER A VIVER EM PAZ E AMOR."


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Não quero dormir, Mamãe.


Ma!...
Ma!...
Ma Ma...
Mamãe!
Me deixa ficar aqui
no seu colo
Não quero dormir
Não quero ir
Me deixa ficar aqui
Ouvindo suas canções
De amor e mistérios
Porque eu sei
Eu sei que se eu dormir
Vou esquecer
Vou esquecer que você está aqui
E que cada partezinha de mim
É tua, mamãe
Eu sou todo feito de você
Sinto você assim na pele de fora
E na pele de dentro
E quando respiro o ar
Sinto o geladinho aqui dentro
E sei que é você
E que o proprio ar também é você
E olho toda a luz
E tudo isso é tão bonito
Mamãe
Não me deixa dormir
Pra que eu possa não esquecer
De você, mamãe
Porque sei que se eu esquecer
Vou sentir medo de novo
E o sono é traiçoeiro, mãe
E eu vou ficar assim,
perdido de novo
Sem saber que somos um
Mamãe
Mamãe
Mamãe Natureza
Me ensina a ficar acordado
O tempo todo admirado
De toda essa grandeza
De toda essa pureza.
Mamãe Natureza.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Um silêncio impressionante

Hoje começamos nossa prática no local de costume, debaixo da árvore, no Aterro do Flamengo, em frente a praia, diante da pedra do Pão de Açúcar. Ali, vento frio e sol quente, fizemos o nosso círculo de esteiras e cangas e fomos nos sentando, uns na sombra outros sob o sol.

Sentados em círculo ficamos um pouco em silêncio. Um silêncio bom, calmo, temperado com a expectativa de uma aula que estava por começar.

Então falamos nossos nomes na roda: André, Luciana, Fernanda, Dona Elizabeth (querida, de volta depois de um tempo distante), Emerson, Rodrigo, Gezilda, Daniela, Del, Ana, Alessandro, Chantal, Ana (que também canta no coral foi pela primeira vez), Ronaldo, Claudio, Adalto, Donilson, Alexandre compunham a roda e depois chegou a Fátima e no finzinho o Aílton e a Maria do Carmo que ainda conseguiram participar da roda final do estudo e do almoço que foi preparado pela Hanna e o Marcos. Outras duas pessoas passavam na hora do almoço e se alimentaram também, mas não registramos seus nomes. Quem sabe retornam, mais cedo, numa próxima vez?

Ali na roda, comentamos sobre as qualidades da mente, tal como apresentadas no yoga sutra de Patanjali. Resumindo o estudo da semana anterior, vimos que a mente pode se apresentar em um desses cinco estados:
1) ksipta, que é a mente agitada, semelhante a um macaco bêbado, que não tem direção alguma, cada hora um pensamento surge e é subitamente substituído por outro;
2) mudha que é o estado da mente letárgica, como um búfalo atolado na lama, pesada, em torpor, que é a mente de quando a pessoa passa por uma grande frustração, decepção;
3) viksipta, que é a mente mais comum: encontra um foco, mas não tem continuidade, caminha entre a fé e a dúvida;
4) ekagrata, que é quando a mente acha um ponto e mantem o foco; é onde começa o trabalho do yoga (e sugerimos exercitar a observação do proprio coração, ou do ponto entre as sobrancelhas) e, por fim, o objetivo de nossa pratica:
5) nirodha, que é a total absorção, onde não há diferença entre observador e observado.

Sugerimos alguns mantras que podem acompanhar a respiração, recitar o nome de alguma divindade ou mestre: Buda, Jesus Cristo, por exemplo, ou palavras positivas como Paz, e lembramos das quatro palavras usadas pelo prof Hermógenes: Entrego, Confio, Aceito e Agradeço.

Depois dessa breve explanação e integração do grupo, passamos à condução da professora Fernanda. Ela aproveitou e iniciou respirando e fazendo mudras relativos a essas quatro palavras do prof Hermógenes. As mãos estendidas a frente, unidas pelos dedos mínimos, com ambas as palmas para cima, num gesto de entrega (Entrego), os dedos entrelaçados e as palmas de encontro ao coração (Confio), uma palma para cima, em concha, à altura da cintura, e a outra palma também em concha sobre a primeira, fazendo uma caixinha, como que cuidando do presente recebido (Aceito) e as palmas unidas em prece junto ao peito (Agradeço).

A condução da Fernanda é sempre muito boa. Ela propõe exercícios e usa um tom de voz que ajuda a ativar a energia do corpo, leva a turma a um estado de ânimo mais ativo, de auto estima, de confiança e vontade de viver, ao mesmo tempo que uma calma e equilíbrio interior, um estado de mais espiritualização de cada um. Uma aula muito bem equilibrada, uma presença que irradia um elevar de ânimo, um cuidado acolhedor, um convite a paz consigo mesmo.

Ela nos conta assim: "não projeto a aula, já a partir do café [onde atua como voluntária] vou vendo os alunos e procurando sentir, através de uma palavra ou outra, o que seria bom para levar para a aula. E simplesmente flui. Ao sabor do vento suave  nos tocando." Segundo ela, "aos poucos,  vou soltando os nós, as tensões, que acumulamos a partir do pescoço, até a ponta dos pés. E preparando o corpo.
Entrei nos asanas calmamente,  trazendo baddha konasana (borboleta) ativando o chacra base, navasana (postura do navio) ajuda a aliviar o estresse, vrksasana (árvore) melhorando o equilíbrio e despertando as qualidades ("tirando a banalidade da postura"e focando qualidades). Passando sempre pela virabhadrasana (guerreiros) despertando a coragem e determinação de metas, com cuidado especial com a coluna. Fortalecendo com adho mukha (postura do cachorro), trazendo a força, firmeza e suavidade. Tadasana (montanha), inspirada no cenário (Pão de Açúcar), com a imaginação de ser nosso próprio corpo, e me deixo ir..."

E agradece: "Todas as segundas que estou junto a vocês, meu dia passa muito leve! Me dá prazer de estar com os alunos e ouvi los..."

Saímos do relaxamento, sentamos em fizemos o mantra OM, e o mantra da paz (OM Shanti). Levando a testa na direção das mãos e do coração... a professora agradeceu a presença e a confiança de todos. Namastê.

Então entoamos baixinho o mantra Lokah Samasta Sukhino Bhavantu ("Que todos os seres sejam felizes"), na melodia que aprendemos na aula anterior.

E depois o silêncio...

Um momento espontaneo de meditação silenciosa.

"Um silêncio impressionante!" nos disse Chantal, uma participante que foi pela primeira vez e há alguns anos vem praticando yoga.

Então, como a professora Ana trouxe um texto para o estudo, nos sentamos mais próximos para a leitura. A transcrição da palestra do Swami Madhurananda, "Efeitos da prática do yoga na personalidade".

Uma reflexão muito clara que trouxe mais consciencia do caminho que estamos trilhando ao praticar yoga. Nosso grupinho, ali, sob o sol do aterro, em roda, refletindo e se aprofundando junto. Quais os efeitos do yoga? O que estamos buscando aqui?

O autor começa definindo o que é uma pessoa. E parte do ponto de vista da filosofia Vedanta, onde "(...) o “ser humano” constitui-se do “Ser”, que é algo imaterial, e do “humano”, que é seu aspecto material."

Então começa a definir a parte material do humano. Assim como a água que se apresenta em seu estado sólido, líquido e gasoso, sem jamais deixar de ser H2O, a pessoa humana igualmente irá se apresentar em diferentes graus de densidade e sutilidade. Matéria e energia em diferentes graus de organização interna. E fala de cinco koshas (palavra em sânscrito que quer dizer invólucro, envoltura). Em cada pessoa são cinco koshas que recobrem, envolvem, o Ser: o corpo físico, a energia vital, também conhecida como prana; a mente; o intelecto, ou seja, um nível mais elevado que é capaz de discernir e discriminar e, em quinto, a mais sutil das envolturas, caracterizada pelo estado de bem aventurança, o samadhi.

Entendendo o ser humano como constituído, em seu aspecto material, pelos cinco koshas, o swami aponta o caminho para estudarmos os efeitos do Yoga na personalidade e em pensar numa prática que atua num sentido de integração, curando a personalidade fragmentada.

"(...) quando falamos dos efeitos da Yoga na personalidade, entendemos os resultados que a prática do Yoga, como um sistema integrado, constituído de diferentes passos, produz em cada um desses cinco níveis. Isto é algo muito importante de se identificar: o que buscamos é obter uma personalidade “integrada”, por isso falamos de um sistema de Yoga integrado, que atua em toda a nossa personalidade e não somente em uma parte dela. Se trabalharmos apenas um aspecto de nossa personalidade, ou seja, um ou dois desses koshas ou invólucros, desenvolveremos uma personalidade fragmentada, dividida, compartimentada; uma característica assustadora no mundo atual.

O que queremos dizer com isso? Podemos praticar algum tipo de Yoga, ou alguns passos do Yoga, que somente promovam a saúde física ou nos ajudem a regular o prana. Mas na vida, quando nos deparamos com sérias dificuldades, e ninguém pode escapar disso, talvez não sejamos capazes de solucionar o problema apresentado, isso porque não dedicamos algum tempo de nossa vida para desenvolver a capacidade de discernir entre o que realmente tem valor e o que não serve para nada. Com isso, as questões essenciais da vida são deixadas totalmente de lado.

Ou pode acontecer o contrário: praticamos algum tipo de Yoga, ou alguns passos do Yoga, através do qual conseguimos desenvolver nossa capacidade de discernimento e alcançamos um nível muito elevado no qual compreendemos muito claramente o que é bom e o que é mau em todos os campos da vida. Mas na hora de aplicar este conhecimento, no momento de “colocar mãos à obra”, como se costuma dizer, não temos nem o vigor, nem a inteireza necessários para fazer o que sabemos que é bom; assim, acabamos levando uma vida contraditória, sempre em conflito entre o que pensamos e o que fazemos, isso porque não nos dedicamos ao desenvolvimento dos outros níveis de nossa personalidade. Esse é um exemplo de personalidade fragmentada. Para alguém assim, é muito difícil, quase impossível, alcançar a união ou a transcendência com sua verdadeira natureza, o Ser ou Atman do qual falamos no começo.

Nossa meta, então, é desenvolver uma personalidade “integrada” por meio de um sistema de Yoga integrado."

Para chegar a esse objetivo de integração, é preciso conhecer o fator aglutinador dos diferentes koshas. Assim como o cimento é o fator aglutinador dos tijolos na construção civil, assim como os ovos são elementos que ajudam a aglutinar os demais ingredientes de um bolo, e bem como o fator gravitacional no centro da Terra ajuda a que os objetos permaneçam no solo (exemplo que nosso grupo em círculo entendeu muito bem)... há no ser humano um centro aglutinador, integrador das partes.

Quando afirmamos "eu sou" e me identifico com o mesmo eu em diferentes momentos da vida, em diferentes relações com diferentes pessoas. Quando sou capaz de perceber "meu corpo", "minha mente" e todos os demais koshas. "Quem atua por detrás, ou em um plano mais profundo, e que percebe tudo? Esse é o nosso centro, é o que mantém nossa personalidade integrada. Identificá-lo é o primeiro grande passo da Yoga. O segundo passo é tentar encontrar-se nesse “centro” a qualquer momento e sempre que se desejar. Em seguida, o ideal é poder permanecer sempre neste centro. Do ponto de vista da Vedanta, a prática do Yoga é essencial para se conseguir isto."

E assim chegamos a entender o sentido de união, do yoga. União que é o significado de yuj, a raiz sânscrita da palavra yoga. União de quê?  "Primeiro, a união de todas as partes de nossa personalidade para nos identificar com nosso verdadeiro Ser, o Atman, o que em nós não é matéria. Em seguida, ocorre a união desse Ser individual com o Ser Universal ou Ser Supremo. Aí, então, alcançamos a unidade com o Todo."

Em algum momento a nossa leitura foi interrompida, porque a Hanna e o Marcos estavam chegando com o almoço e precisavam de ajuda para carregar as bolsas do carro estacionado lá na praia do flamengo. Paramos. Um grupo foi até lá ajudar a carregar. A Del foi acompanhada, se não me engano, pelos generosos Ronaldo, Donilson e Alexandre. E o restante do grupo continuou atento à leitura que fazíamos com breves paradas para um pequeno resumo para manter atenção.

E dali em diante o swami se propõe a descrever um pouco a técnica do yoga. Para aprofundar ele indica a leitura do livro do Swami Vivekananda "Raja Yoga" e o capítulo 6 do Srimad Baghavad Gita.

A técnica do yoga se dá em 8 passos. Começa com yama e nyama, práticas de conduta sem as quais a prática por inclusive, diz ele, se tornar prejudicial e até mesmo, fatal. Em resumo, "yama, nos convida a não prejudicar nenhum ser vivo, a ser verdadeiros conosco mesmos e com os outros, a não nos apropriarmos dos bens alheios, não levar uma vida promíscua e não depender da generosidade e dos favores de ninguém. O segundo passo, niyama, nos ajuda a manter uma conduta equilibrada, já que nos propõe levar uma vida simples, dedicada ao estudo e aquisição de princípios elevados (que é o que estamos fazendo agora), manter um constante bom humor, ser asseados interna e externamente e, de alguma maneira, a nos relacionarmos com Deus.

Em terceiro, asana, posturas. Disciplinar e controlar o corpo, pois trabalhando com o que é visível vamos alcançando os níveis mais sutis, equilibrando a circulação das energias. Em quarto, pranayama, o controle da energia vital. Swami recomenda que se pratique com cuidado, sob a instrução apropriada. "O resultado para a personalidade é um equilíbrio emocional maior, algo tão necessário para nós latinos, sempre temperamentais, apaixonados, e sentimentais por natureza."

Os próximos passos atuam sobre os koshas, ou envolturas, que condicionam a mente. A tendência dos sentidos é fazer nos voltarmos para fora. Assim, com a visão, nos voltamos para o que tem forma, com a audição, acompanhamos os sons, etc. Controlar essa tendência e nos voltar para o interior é o quinto passo, chamado pratyahara. Em sexto, dharana, é quando focamos em um ponto fixo e tratamos de manter a atenção fixa neles. (Aqui lembramos do início da aula em que falávamos do estado mental chamado ekagrata e em seguida nirodha). E o swami recomenda, como exemplo, focarmos no ponto na região do coração ou entre as sobrancelhas e adverte que no coração é mais fácil e menos perigosa do que no espaço entre as sobrancelhas.

Aqui já estamos falando da esfera mais sutil da personalidade. E vemos que "a prática do Yoga gera uma grande força mental em nossa personalidade. Essa força mental exerce um importante papel na hora de enfrentar muitas situações, positivas ou negativas, da vida cotidiana sem que a personalidade seja afetada."

Para os dois passos seguintes, essas foram as palavras do swami:

"A seguir, vem a prática de dhyana ou meditação, que atua sobre a envoltura relacionada com o estado de bem-aventurança no homem. A verdadeira meditação produz um estado de intensa bem-aventurança em qualquer ser humano, e não uma simples alegria. 

Há milhares de livros sobre meditação, mas aqui só diremos que a meditação é a vibração de uma só onda mental de forma constante, sem que esta se altere por influência de outras ondas mentais. É o fluxo constante de um só pensamento, idéia ou conceito, sem nenhuma interrupção. Quando alguém medita realmente, consegue alcançar uma percepção completamente diferente das coisas, das pessoas e das situações. Alcança uma compreensão maior sobre qualquer tema e uma idéia clara a respeito de que direção tomar em cada atividade da vida. Como já dissemos antes, este é o portal que nos conecta com nosso Ser, o Atman

Finalmente, quando essa meditação se torna estável e a mente se une completamente ao seu objeto de meditação, quando a mente e seu objeto de meditação se tornam um, é alcançado o último passo, denominado samadhi, que nos conecta diretamente com nosso Ser ou Atman

Somente quando experimentamos a existência do Atman em nós é que encontramos nosso centro de gravidade espiritual, aquele que mantém a personalidade totalmente integrada.

Se durante doze segundos a mente puder se manter concentrada em um único objeto, teremos um dhárana. Doze dháranas constituem um dhyana e doze dhyanas constituem um samadhi. Ao alcançar este último passo, passamos a perceber nossa existência em Deus e a presença de Deus em tudo."

E assim, terminamos a leitura e abrimos o bate papo. 
Maria do Carmo, que chegou na hora do estudo foi a primeira a falar (como é costume observarmos... que não faz a prática e chega ao final, está sempre mais falante que o grupo). Ela nos contou de como é, de fato, difícil manter a mente tranquila diante das agitações da vida, especialmente quando a pessoa faz uso de drogas.
Ana também disse que, no geral, a vida na rua leva as pessoas a uma situação como a do macaco bêbado, sempre muito agitada, perambulando.
Aílton fez suas colocações e perguntas sobre o estudo anterior a respeito dos mudras... e a professora Ana aproveitou para lembrar que o estudo sobre mudras é uma das técnicas e hoje, estávamos podendo ter uma visão geral do sistema como um todo.
Rodrigo e Alessandro se mostraram muito atentos e também fizeram colocações na roda sobre a importância dessa metodologia integradora, uma vez que percebem nitidamente a realidade da fragmentação.
A professora Ana voltou a frisar que o método é integrador por dar conta de todos os koshas, e disse: se a pessoa trabalha só como uma ginástica, fica faltando o trabalho com a mente; por outro lado, as vezes a pessoa estuda muito, é muito intelectual, sabe muita coisa, mas não consegue nem se levantar com energia para fazer o que tem que ser feito.
Quando falamos sobre os asanas, Ana lembrou que essa é a parte visível do trabalho, mas que a pessoa pode praticar o tempo todo e quem estiver olhando não vai saber. Mostrou, sentando-se numa postura muito comum do dia a dia e disse: "eu posso sentar assim [com o rosto apoiado na mão], as pessoas vão olhar e não vão saber, mas eu posso estar praticando; a pessoa pode estar deitada, de olhos fechados, vão achar que ela está dormindo; ela até pode estar dormindo, mas também pode estar praticando."
E assim a conversa foi aguçando a vontade de todos do grupo se empenharem na prática constante que, segundo ela, é necessária para obter os benefícios do yoga.
Uma das metáforas que surgiu no grupo foi a do motorista que dorme no volante e acorda antes de bater o carro. Ou seja, mesmo depois de perceber que dormiu, voltar a praticar, porque a estrada ainda não chegou ao fim. Ana aproveitou para falar da inconsciencia total que entramos no sono, quando nos esquecemos de quem somos.
Aílton voltou a expressar sua admiração pelo yoga: "é um sistema antigo, não é mesmo? Quanto anos tem" E fomos comentando que apesar da sistematização por Patanjali ter cerca de 3000 anos, já antes os mestres transmitiam essa prática.
Ana, que estava vindo pela primeira vez mas que já estudou yoga em outras ocasiões, citou Hermogenes e Prabhupada, como pessoas de realização espiritual, assim como Madre Teresa, que ali é admirada por todos que geralmente almoçam na casa das Missionárias da Caridade, na Lapa. Lembramos que ela praticava a oração constante, dando um foco a sua mente, assim como fazem suas seguidoras.
E assim, fomos concluindo com as palavras do Aílton, tentando exprimir um sentimento de reverência, compreendendo que se trata de um conhecimento verdadeiramente profundo e transcendental, capaz de orientar a pessoa na jornada do Espírito. E nos integrar uns aos outros também, em grupo. E todos ficamos assim, silenciosos, calmos, contemplativos, agradecidos pelo momento.

Foi aí que nos preparamos para o almoço que já estava ali.
Moqueca capixaba de banana da terra.
Hanna, que é também professor de yoga no projeto e hoje aceitou servir na cozinha, comentou que quando se tornou vegetariana um dos seus principais desafios não era exatamente a falta de carne, mas a questão da memória afetiva... lembrar do seu pai na cozinha, preparando moqueca, bobó, comidas típicas de sua terra natal.
Então com muito carinho ela estava ali nos apresentando sua moqueca: banana da terra, coentro, tomate, cebola e urucum. Acompanhada abundantemente de farofa de cebola e arroz com leite de coco e salada. Servido ali mesmo, com as panelas, em potes reutilizáveis. Tudo com muita beleza. Nós seguramos os potes mas mãos, e juntos, conduzidos pela propria Hanna, entoamos o mantra OM, agradecidos por tanto amor. Quem quisesse ainda podia ir ao centro da roda repetir salada, arroz, farofa e acrescentar pimenta preparada pela propria cozinheira. Maravilhoso!

Maravilhoso! Tudo. Tudo. Tudo. Não é mesmo?

E depois de escrever essas muitas linhas, refletindo à noite sobre a beleza do dia e a maravilha desse encontro matinal e a possibilidade de vivermos tudo isso juntos, me emocionei. Por poder estar vivendo isso. A comunhão (koinonia, como disse um dos amigos) e a abertura dos corações para o conhecimento. Especialmente por ver o conhecimento fluindo sem obstáculos do coração da Existência aos corações dos praticantes. A integração do serviço amoroso e generoso da alimentação. E o silêncio... especialmente a comunhão do silêncio que acontece ali. E tudo o que fazemos, sem esforço, é praticar. O resto, é o que acontece.

E, assim, à noite, em casa, abri o livro que tenho lido e retomo a leitura:

"Certo pai tinha dois filhos. Para instrui-los no conhecimento de Brahman, enviou-os a um Acharya (preceptor). Depois de alguns anos retornaram à casa e saudaram a seu pai. Este estava ansioso por saber o que haviam aprendido acerca de Brahman; assim é que perguntou a seu filho mais velho: 'Filho querido, estudaste as Escrituras e filosofias; dize-me: com que se parece Brahman?' O filho mais velho procurou, então, descrever o Absoluto Brahman, citando várias passagens dos Vedas.

O pai guardou silêncio. Virando-se para seu filho mais novo, fez-lhe a mesma pergunta. Porém, este não respondeu com palavras; permaneceu imóvel e em comunhão silenciosa com Brahman. Então o pai exclamou: 'Filho querido, tu te aproximaste da realização de Brahman. Teu silêncio é uma resposta melhor que a recitação de uma centena de textos dos Vedas, porque Brahman é indescritível por palavras. É, em verdade, o Absoluto silêncio." (O Evangelho de Ramakrishna, p. 63,4)